domingo, 18 de maio de 2008

2008.05.17 - Auditório da Biblioteca Municipal do Barreiro - Apresentação de "Rio de sal", Luís Ferreira (Edium Editores, 2008)

Antes do mais, agradeço a vossa presença nesta bela tarde de sábado. Como por diversas vezes já afirmei, a Poesia de nada vale sem público. São os leitores a essência do ofício poético.

Obrigado por isso.

Numa altura em que os caminhos da Poesia, na sua generalidade, vão desembocar a um certo hermetismo, é reconfortante descobrir vozes que navegam por outras vias.

Naturalmente que me refiro, especialmente, ao poeta de quem hoje se apresenta este título: “Rio de sal”, o Luís Ferreira.

Do Luís Ferreira, como pessoa, o que sei, surge basicamente do que li e de um curto encontro em Viana do Alentejo, onde nos brindou: a mim e ao poeta José-Augusto de Carvalho, com a sua presença aquando do lançamento conjunto do meu “O livro do regresso” e do “Da humana condição”, desse excelente poeta alentejano.

Mas sei um pouco mais, para além do que transparece do que escreve e do pouco que falámos na altura. Tem 38 anos, feitos recentemente, sendo natural desta cidade que hoje nos acolhe, o Barreiro.

A sua obra já foi objecto de diversas distinções. E publicou o seu primeiro livro no ano passado, “Mar de sonhos”, título homónimo do seu blogue.

Ora bem, este seu segundo título: “Rio de sal”, pelo que em suas águas transporta, faz-nos, não edificar uma ponte, mas deixarmo-nos levar na sua corrente, na sua serena corrente.

É um livro que pretende, não uma contemplação exterior, sendo, portanto, a tal ponte desnecessária, mas uma observação de dentro dos próprios mecanismos do poema.

Há que sentir. É por isso que considero “Rio de sal” um retrato do homem e do poeta, da sensibilidade que o homem possui e que o poeta transporta para a condição de poema.

Passo a explicar. Lê-lo foi revisitar um dos pontos altos de qualquer época da História da Poesia: a temática amorosa. Embora não seja da opinião do poeta francês Mallarmé que refere que a poesia se faz com palavras, e não com ideias, devo reconhecer que, tendo como antípoda da ideia ou razão o sentimento, as palavras adquirem uma outra conotação.

A Poesia de Luís Ferreira vai por aí, desenvolve-se nesse caminho da palavra possuidora de musicalidade para o despertar dos sentidos. Não quero com isto dizer que a ideia, ou sua visão pessoal do mundo, esteja fora da sua Poesia, muito pelo contrário.

Mas Luís Ferreira pretende sobretudo, naturalmente que isto é a minha leitura, chegar a uma outra foz.

Este rio pretende o mar, tal como qualquer outro rio, mas o seu mar é aquilo a que nós nos habituámos a designar por coração. Ou seja: a nossa forma sensível de encararmos e compreendermos o mundo.

Neste “Rio de sal” encontro o rosto do filho pródigo que regressa à casa da Poesia. Mas que desenha esse seu caminho, não de mãos vazias, mas trazendo consigo o tema, reforço aqui a utilização do artigo definido, porque é o tema da Poesia: o amor.

Um pequeno parêntesis: o amor e a morte são os temas de eleição da Poesia, opinião que não é só a minha, mas que é partilhado por muitos. Naturalmente, vale o que vale.

Quando há pouco referi a questão temporal, desta temática ser transversal à História da Poesia, fi-lo com natural convicção.

Proponho-vos, portanto, uma pequena viagem pelo tempo, dando voz aos poetas, e onde os encontro, naturalmente, neste “Rio de sal”, de Luís Ferreira.

Em jeito de epígrafe, deixo-vos uma citação de um poeta, como tantos outros, esquecido por este país pretensamente de poetas, refiro-me a Gabriel Pereira de Castro, poeta do século XVI, e que é a seguinte:

Como é no mundo Amor quinto elemento
Que tem dos gostos uma e outra chave


Antes, o que motivou esta procura, e esta necessidade de viajar através do tempo, seguindo, como os nossos antigos marinheiros, a linha de costa propiciada pela Poesia de Luís Ferreira.

Estes foram os dois versos causadores desta demanda, incluídos no poema: “Uma morte anunciada”. Passo a citar:

Geração após geração...
Tudo é uno e o uno é universo.

Posto isto, iniciemos então esta viagem escutando João Airas de Santiago, da segunda metade do século XIII:

Dos que a guardam sei eu já
que lhis non pod’ ome alá ir,
mais direi-vos, por non mentir:
pero mui guardad’ está,
quantos dias no mundo son,
alá vai o meu coraçon.

Agora, Luís Ferreira, com excertos retirados do poema: “Meu amor, preciso de ti esta noite...”:

Sinto-me só no meu mundo
(...)
peço ao vento que transporte o meu desejo
(...)
Quero que a tua respiração rompa este silêncio,
E as palavras secretas alegrem o meu coração
(...)
como preciso do teu amor,
Para ser feliz...
Como preciso de ti esta noite...

Tal como o poeta galaico-português, Luís Ferreira sabe moldar esta vertente, a do amor distante e a necessidade de o ter ao seu lado: ou seja, uma esperança que não se esvai, por muito difícil que seja o concretizar desse desejo.

Mas esta herança não advém só da Idade Média, ela surge, embora de uma forma mais directa, com um poeta quinhentista, o nosso poeta maior, Luís Vaz de Camões, ao introduzir Luís Ferreira um dos mais conhecidos versos camonianos: “Amor é fogo que arde sem se ver”, no seu poema: “Contos de fadas”.

Aliás, a ideia do amor como fogo, sobretudo como visão de purificação, surge amiúde neste volume.

Prosseguindo a nossa viagem, agora Bocage, poeta oitocentista, escutemos:

Tu és meu coração, tu és meu nume;
Não vive para mim do mundo o resto;
A morte, a vida, os Céus, meu fado atesto,
Meu fado, que em teus olhos se resume.


Luís Ferreira apresenta-nos o amor como algo essencial para a existência humana, talvez resuma desta forma essa ideia no poema: “A noite é nossa, meu amor”:

Num compasso intemporal, cíclico e constante,
Obra majestosa do grande Maestro,
Que acontece desde o princípio dos tempos.

Ou seja, esta obra majestosa, o amor, assumindo a tal condição de quinto elemento, porque criada pelo Maestro, é algo que se repete, mas sobretudo se reinventa através do tempo.

Sendo o poeta homem do seu tempo, mas que concebe, ou deveria conceber, a sua obra como intemporal, é nele que reside a obrigação de decifrar essa matéria, torná-la visível aos olhos do outro, do seu contemporâneo e do seu vindouro.

Para concluir esta pequena amostragem da temática amorosa na Poesia de Língua Portuguesa, e de como Luís Ferreira trabalha a essência dessa matéria da nossa memória cultural e a incorpora, transformada na sua própria oficina poética, com o seu próprio registro, um último exemplo: Vinicius de Moraes, poeta brasileiro do século XX:

(...) de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de amar de amar mais do que pude.

A perenidade do amor que é aqui mencionada, encontro-a em diversos instantes de “Rio de sal”, como exemplo, no poema: “Eu e tu somos um”, onde a dado passo lê-se:

O cedo fica tarde, e o tempo pára...
O mundo não gira, nada importa,
(...)
Ficamos perdidos naquele eterno momento

Com estes pequenos exemplos pretendi situar o livro: “Rio de sal”, e, necessariamente, o seu autor, numa espécie de árvore genealógica. Uma das mais frondosas árvores, não só da Poesia de Língua Portuguesa, mas de toda a Poesia.

E o amor como base temática é, sem dúvida, de importância maior na Poesia, não só, pelos diversos nomes que mencionei, se poderia chegar a essa conclusão, mas sobretudo porque vivemos tempos de um certo alheamento.

E a Poesia tem por obrigação não ser uma linguagem virada para o próprio umbigo, mas vocacionada para o acordar dos homens. Sobretudo, embora não esquecendo o passado, deve estar virada para o futuro.

Assim, como diz Luís Ferreira no poema: “Mundos de silêncio e de escuridão”, e com esta citação concluo:

Como é belo o mundo, o canto de um pássaro...
A melodia do sorriso de uma criança feliz.

Obrigado ao Luís Ferreira pelo voto de confiança, à Edium por mais esta aposta e a todos vós, de novo, o meu muito obrigado.

Que este “Rio de sal” vos traga, tal como me ocorreu, instantes de boa Poesia.

2 comentários:

Mel de Carvalho disse...

Muitíssimo bom o trabalho de ambos, o seu e o do Luís, neste dia que tive o grato prazer de partilhar. As amaiores venturas a ambos!

Um abraço
Mel

Xavier Zarco disse...

Cara Mel,
De facto há dias assim, dias em que, nem que seja só por esse instante, nos dizem que há futuro para a Poesia.
Um beijo

Xavier Zarco