domingo, 11 de maio de 2008

PREFÁCIO - "Algo indecifravelmente veloz", Andityas Soares de Moura

"Algo indecifravelmente veloz"
Andityas Soares de Moura
Edium Editores, 2007


Efectuar uma antologia poética é, como a própria expressão dá a entender, proceder à escolha de poemas em detrimento de outros. Na minha visão como poeta, este procedimento deverá ser um processo doloroso. Menciono deverá, porque nunca o fiz. Aliás, para corroborar essa ideia, há quem considere, e sinto um pouco isso, o poema como uma espécie de filho. E entre um progenitor e um filho, há um vínculo que não se quebra, ou não se deveria quebrar.

No entanto, esta colectânea, elaborada pelo próprio Autor, aparece-me como um livro novo, embora contenha, de facto, poemas anteriormente publicados. É um novo passo dado na incessante busca da palavra poética. Não é, na minha óptica, apesar das divisórias com indicação de edição, a simples, embora ampla, como refere o próprio Andityas Soares de Moura na “Notícia do autor”, selecção de poemas dos seus três livros, aos quais adicionou alguns inéditos.

Apresenta-se-me esta palavra, que surge sob o título: antologia, com um outro seu significado. Observo-a como sendo uma selecta de flores. É, por isso, que atribuo a este tomo o adjectivo de antino. Contém flores de variegadas proveniências, mas que interagem e se complementam, tais são os múltiplos focos para a deflagração dos sentidos que emanam dos seus poemas

Estamos, pois, a meu ver, perante um novo título na obra poética de Andityas Soares de Moura. O primeiro que chega até nós, finalmente, devo acrescentar, para deleite do público português.

Enveredar pela leitura deste volume é, de facto, como entrar num jardim. Há que parar, indagar pela serenidade necessária para a contemplação, o usufruto de cada traço, de cada esboço para, adindo cada instante, nos deixarmos surpreender pela virtuosidade do todo arquitectónico.

Há, no fundo, que investir na busca de cada matiz, de cada murmúrio, de cada aroma e abrirmo-nos para a desocultação dos vestígios de uma caminhada: aquela magistral viagem por entre o tempo e as suas constantes transformações para aqui chegar, a este instante em que vivemos e temos o privilégio de a todo este manancial de sensações poder não só assistir, mas degustar.

Para seguir os passos do poeta, não nos devemos esquecer do que afirmou Hegel: “Dizem (...) que coisa alguma se fez sem que houvesse a sustentá-la o interesse daqueles que nela colaboram. A este interesse chamamos nós paixão quando, recalcando todos os interesses ou fins, toda a individualidade se projecta num objectivo com todas as fibras interiores do seu querer, e neste fim concentra as suas forças e impulsos. Neste sentido, devemos dizer que nada no mundo se fez sem paixão.” (1)

Esta paixão, este empenho, com que o poeta soube contaminar a sua obra, transfere-se do Autor para o Leitor, quando este verdadeiramente, como se soía dizer: de peito aberto, se entrega à demanda do poema, quando lhe descobre novos rumos, experimenta novas sensações. E tal, neste novo título de Andityas Soares de Moura, é algo com que nos deparamos a cada verso, tal é a luminosidade da sua Poesia.

Uma Poesia que dispõe da capacidade de metamorfose rente ao olhar de espanto de cada um de nós, aqueles que, simplesmente, quisemos deambular por este autêntico jardim denominado: Algo indecifravelmente veloz.

Xavier Zarco
Coimbra, 1 de Novembro de 2007

(1) d’Hondt, Jacques – Hegel, Lisboa, Edições 70, 1990, pág. 105