quinta-feira, 7 de agosto de 2008

[Consomes a memória, como um]

Consomes a memória, como um
cigarro esquecido no canto
da boca, enquanto o olhar perdura
pendurado na janela
do horizonte. E, em cada imagem,
recolhes o poema. A safra de
apartar da amálgama
do tempo a palavra, o ritmo,
a música com que acordas
o sol
e despertas o caminho,
secreto mapa,
orografia no tegumento
das mãos em dédalo desenhada.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

[consome]

consome
o sonho
no instante
da partida

regresso
incólume
fumo
ascendente

memória
de uma cigarrilha
esquecida
presa
entre os dedos

terça-feira, 5 de agosto de 2008

[conhecia o segredo supremo]

conhecia o segredo supremo
do universo
o sorriso das estrelas
e chamou-lhe música

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

[Como o rio que nasce, sonho o sal]

Como o rio que nasce, sonho o sal
O poema final por escrever
Na face desta pedra onde meu ser
Procura um corpo, uma alma ou um sinal.

Sei somente do instante deste vale
Que espera o sulco, a fenda a percorrer
Por esta água em fúria. Deter
Entre margens o corpo, o sonho, o sal.

Não sei por que adjectivo definir
Este rumor amargo, esta memória
Em que me deixo aqui dentro da estória

Que alguém, um dia, algures há-de vir
A escrever. Sei somente que sou rio,
Palavra que procura o sal que adio.

domingo, 3 de agosto de 2008

[como o almuadem]

como o almuadem
no topo
do minarete

proclamo
a hora

a hora
em que a poesia

por teu olhar
alada

indaga
o sol

e nele
bebe o ritmo
a cadência

a música
das palavras
ocultas

no ventre
de cada verso

sábado, 2 de agosto de 2008

[como em secreto ritual]

como em secreto ritual
as vestes iniciáticas
trajo

espero a revelação
dos símbolos

o aforismo supremo
que em silêncio na alma se guarda
como relíquia sagrada
do templo do homem

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

[Aguarda que em silêncio a palavra]

Aguarda que em silêncio a palavra
se erga e ganhe o seu corpo de sentido.
Ente alado nas vozes desprendido
num gesto libertário em que se abra

para a boca do mundo sendo lavra
secreta do poema que vivido
fora e nunca cantado. Não ferido
pelas asas do tempo como escrava

de corpo aberto ao dono, com o olhar
disperso pelo céu numa viagem
sem dor, nem sensação, em liberdade.

Nado, o poema é estrela, astro a errar
no ventre do silêncio. A voragem
de correr para a morte e ser verdade.