segunda-feira, 7 de julho de 2008

[a mão]

a mão
esboça

o gesto

iluminando
no ventre

a palavra

domingo, 6 de julho de 2008

[A luz. A magia da luz]

A luz. A magia da luz
aflorava no olhar. Por uma fenda
antevia a cor, a cor
de um desejo imenso
que fluía
entre dedos
na ramagem do tempo.

Acordava abrindo uma janela
para dependurar
um quadro

o derradeiro sonho
de uma viagem
ao interior da alma.

sábado, 5 de julho de 2008

A José Craveirinha

José traz a palavra qual semente
no ventre de seus olhos. Era no
branco solo da página que o po-
ema brotava. Verso a verso. Pétala
com o sol encantada, indagava a
luz. José admirava o subtil fio
de ouro que por magia se erguia em
cada verso. Por ele, subia. Hábil,
trepava na candura dos acordes
emanados. José aprendeu essa
música, a flor secreta. E quando o seu
olhar fechou, em suas mãos guardava
o aroma desta terra onde nascera
e as palavras da safra que colhera
e que nos dera em cântico de sonho.
De todas, as mais belas, essas tinha-as,
preciosas, bem junto ao coração:
Maria, Moçambique, Liberdade.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

a Joaquín Rodrigo

no sol da andaluzia
talhaste o bojo de uma guitarra
e dedilhaste a vida
a magia da cor
da luz de aranjuez
sentindo-a como tua
somente tua

e no trasto do sonho
acordaste o acorde
o início da melodia
que célere trepa
como cometa
o tegumento do cosmos

ao sol da andaluzia
adormeceste
e como grega pomba voaste
rente à abóbada celeste

quinta-feira, 3 de julho de 2008

[À guisa de posfácio, pousei]

À guisa de posfácio, pousei
Um derradeiro verso sobre a fria
Laje que cobre o túmulo onde um dia
Meu corpo inerte, inútil deixarei.

Pouco me resta, é certo. Do que sei,
Sendo pouco, farei uma enxertia
Em outra árvore. Quero poesia
Legar pelos recantos onde andei.

Semear poesia, é construir
Memória, sentido, sentimento.
É certeza da vida a refulgir.

Quando morrer, que morra. O que perdi,
Foi pouco mais que o instante, um só momento,
Porque, de resto, soube que vivi.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

[A cama, lençóis, fronhas, almofadas]

A cama, lençóis, fronhas, almofadas,
edredons, cobertores e as colchas.
Para haver poesia bastaria
o meu corpo, o teu corpo e nada mais.

terça-feira, 1 de julho de 2008

[a argila]

a argila
como sémen

aguardando
o gesto
de oleiro

que a erga
em carne
e sangue

e movimento